quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Cuba deixa o Programa Mais Médicos após declarações de Bolsonaro

O governo cubano anunciou, nesta quarta-feira (14/11/2018), que deixará o Programa Mais Médicos, do qual participa desde 2013. Em um comunicado, o Ministério da Saúde Pública de Cuba afirma que a decisão se deve a declarações recentes do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro. 
"O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, com referências diretas, desrespeitosas e ameaçadoras à presença de nossos médicos, declarou e reiterou que modificará termos e condições do Programa Mais Médicos, com desrespeito à Organização Panamericana de Saúde e ao acordado por esta com Cuba", diz um trecho do comunicado.
"Portanto, diante desta lamentável realidade, o Ministério da Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando no Programa Mais Médicos e assim o comunicou à diretora da Opas e aos líderes brasileiros que fundaram e defenderam esta iniciativa", prossegue.
Questionamentos de Bolsonaro - Bolsonaro usou as redes sociais para comentar a decisão do governo cubano. Segundo ele, o governo cubano decidiu sair do programa porque não aceitou as condições impostas por ele, como "aplicação de teste de capacidade e salário integral aos profissionais cubanos".
Ao longo da campanha e depois de eleito, Bolsonaro deu diversas declarações criticando o programa, iniciado em 2013, no governo de Dilma Rousseff, com intermediação da Opas. No começo deste mês, em entrevista ao Correio, o presidente eleito voltou a questionar a iniciativa, colocando em dúvida a formação dos médicos e descrevendo a situação dos profissionais cubanos como uma violação dos direitos humanos. 
"Olha, respeitosamente, qual o negócio que podemos fazer com Cuba? Vamos falar de direitos humanos? Pega uma senhora que está aí de branco, que veio no programa Mais Médicos. Falei “senhora” porque não sei se ela é médica, não fez programa de revalidação. Pergunta se ela tem filhos. Já perguntei. Tem dois, três, estão em Cuba. Não vêm para cá. Isso para uma mãe, não é mais que uma tortura? Ficar um ano longe dos filhos menores? Quem vem para cá de outros países ganha salário integral. Os cubanos ganham aproximadamente 25% do salário. O resto vai para alimentar a ditadura cubana?", afirmou.
Dados do Mais Médicos - Ao todo, 63 milhões de brasileiros passaram a ter atendimento médico com a instalação do Programa Mais Médicos, em 2013, segundo dados do Ministério da Saúde. O mais recente balanço do progarma, divulgado em 2016, pontuou que a ação é responsável por 48% das equipes de atenção básica em municípios com até 10 mil habitantes. Em 1,1 mil cidades atendidas pelo programa, ele representava toda a cobertura de saúde básica. 
O especialista em saúde pública e professor aposentado da UnB Flávio Goulart disse ao Correio que o Brasil não tem condições de repor os médicos que serão perdidos com a saída de Cuba do programa. Apesar da polêmica, o Mais Médico contrata profissionais de diversas nacionalidades. Ao todo, 18.240 prossifionais trabalham na saúde básica por meio do programa.
Na carta que divulgou, o ministério cubano informa que a continuidade do Mais Médicos foi acertada em 2016 com a Opas e o governo brasileiro e que, nos cinco anos de presença no país, cerca de 20 mil médicos cubanos fizeram cerca de 113 milhões de atendimentos em 3,6 mil municípios. "Mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez na história", afirma o texto.
"Não é aceitável que se questionem a dignidade, o profissionalismo e o altruísmo dos colaboradores cubanos que, com o apoio de suas famílias, prestam atualmente serviços em 67 países. Em 55 anos, foram cumpridas 600 mil missões internacionais em 164 nações, das quais participaram mais de 400 mil trabalhadores de saúde, que em não poucos casos cumpriram essa honrosa tarefa em mais de uma ocasião", diz o governo da ilha caribenha.
*** Informações com Correio Braziliense
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