segunda-feira, 9 de novembro de 2020

No Ceará, mais de 1.900 pacientes com Covid-19 foram transferidos do interior para leitos em Fortaleza

Entre os meses de março e outubro deste ano, 1.921 pacientes diagnosticados com Covid-19 foram transferidos de outros municípios cearenses para hospitais da rede pública de saúde em Fortaleza em busca de tratamento. A média de encaminhamentos foi de 240 pessoas por mês. Os dados são da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).
O período que concentrou maior fluxo de transferências foi o mês de maio, pico da pandemia no Ceará. Ao todo, 407 pessoas saíram de outras cidades para a capital nesse intervalo. Em junho, foram mais 679 transferências. Somados, os dois meses concentraram 56,5% do total de pacientes transferidos registrado em oito meses.
Os hospitais Leonardo Da Vinci, unidade privada e aberta pelo governo do Ceará durante a pandemia; Batista Memorial, também privado e com leitos requisitados pela Sesa; e São José, referência no tratamento de doenças infecciosas, foram os três que mais receberam pacientes transferidos, de acordo com a secretaria.
Pandemia aumentou demanda pré-existente
A demanda gerada pela pandemia se somou a uma já existente. Em 2019, 767 pessoas por mês, em média, saíram dos municípios de origem para atendimento médico de diversas especialidades em Fortaleza. Foram 6.140 transferências de janeiro a dezembro.
Já neste ano, em maio e junho, 1.499 pacientes se deslocaram do interior à capital cearense, a maioria em junho (822). Somando pacientes com Covid-19 e pessoas com outras patologias, 2.585 foram transferidos apenas no auge do novo coronavírus no Ceará.
João Malaquias dos Santos, de 83 anos, foi um deles. O agricultor aposentado, que já tratava problemas no coração antes da pandemia, voou de helicóptero, de Itapipoca para Fortaleza, uma distância aproximada de 150 km. No caminho, teve duas paradas cardíacas, precisando ser reanimado até chegar ao Hospital do Coração de Messejana (HM), na capital.
O estado de saúde de Malaquias, como narra a filha do idoso, Rosimeire dos Santos, 34, se agravou no primeiro semestre, quando o tratamento precisou ser interrompido diante da pandemia de Covid-19. Com dores, falta de ar, tosse, e sem um hospital próximo que atendesse às suas necessidades, o agricultor teve de ser transferido a Fortaleza, mas morreu dois dias depois da internação.
“Ir daqui pra Fortaleza é complicação muito grande. Com certeza se ele tivesse tido a assistência que ele precisava em Itapipoca, ainda poderia estar com a gente”, opina Rosimeire, afirmando que até hoje não sabe ao certo qual foi a causa da morte do pai: se Covid, coração ou os dois, já que “ambas apareciam no laudo”. Questionada, a assessoria do HM disse ao G1 que a informação é restrita à família.
Todas as transferências de pacientes de cidades do interior do Ceará para leitos públicos ou custeados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conforme a Sesa, “ocorrem por meio do sistema de regulação estadual, sendo que o município de Fortaleza possui um sistema próprio de regulação para as unidades hospitalares municipais e, quando necessário, se integram com o sistema estadual”.
Atenção secundária é um dos grandes gargalos do SUS, diz especialista
Emille Sampaio, mestra em Saúde Pública e professora do curso de Medicina da Universidade Federal do Cariri (UFCA), considera que seria preciso acesso a dados detalhados para entender as motivações e origens dessas transferências, mas garante que elas podem estar ligadas a deficiências estruturais basilares da rede pública.
“Um dos grandes gargalos no SUS, hoje, é a atenção secundária. O paciente às vezes consegue uma consulta no posto, é encaminhado ao especialista, mas demora muito a conseguir. Durante essa espera longa, o problema de saúde pode se agravar, ele precisar da atenção terciária e ser transferido”, observa.
A médica pontua, contudo, que o processo de deslocamento de pacientes entre cidades é comum, faz parte do “itinerário terapêutico” e do funcionamento da rede de saúde. “Não vamos conseguir ter um hospital de grande porte, de atenção terciária, em todos os municípios. Casos mais graves precisam da atenção que está em grandes centros urbanos. A ida a Fortaleza não necessariamente significa que a rede do interior não está organizada”, pondera.
A urgência de fortalecimento da rede de saúde como um todo, com maior aporte financeiro, frisa Emille, foi ainda mais evidenciada com a chegada da pandemia. “Outro elemento que influencia nesse cenário é o financiamento: pra fazer com que algo funcione, precisamos ter verba, saber gerir. O que a Covid nos mostrou é que temos que fortalecer ainda mais a atenção primária. Temos municípios com 100% de cobertura, mas outros ainda precisam de muito avanço. E os casos de Covid mais graves vão ser acompanhados na atenção primária e secundária”, finaliza.
O G1 solicitou à Sesa entrevista com integrante do órgão para discutir as transferências de pacientes e os impactos na rede pública de saúde do Ceará, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.
Covid-19 no Ceará
Até domingo (8), o Ceará registrou 278.350 casos confirmados de Covid-19 e 9.402 óbitos em decorrência da doença, segundo a plataforma IntegraSUS, da Sesa. Mais de um milhão de exames já foram realizados para detectar a doença no estado. Atualmente, 53,5% das UTIs e 30,64% das enfermarias da rede pública cearense estão ocupadas.  
*** Informações com:  G1

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