domingo, 9 de junho de 2019

Com uma centena de embarcações naufragadas, litoral do Ceará abriga navio desde a época da Segunda Guerra Mundial

O fundo do mar guarda, além de inúmeros mistérios e incertezas, vestígios da História brasileira. Entre eles, barcos, navios e até aviões que naufragaram décadas ou séculos atrás. Pesquisadores cearenses contabilizam que há, aproximadamente, uma centena de estruturas afundadas nos mares do estado do Ceará.
Uma das embarcações, o “Naufrágio do Pecém”, nome dado ao navio “Steamer Ship (navio a vapor, em português) Baron Dechmont” após a submersão, encontra-se nas profundezas do mar da Praia do Pecém, no litoral cearense, desde a Segunda Guerra Mundial.
A embarcação de origem britânica foi desenvolvida durante o conflito internacional, com o objetivo de ser um navio mercante, mas com possibilidade bélica de defesa. Contudo, em 3 de janeiro de 1943, foi derrubada por um algoz famoso: o U-507 (Unterseeboot-507), submarino alemão enviado à costa brasileira para pressionar o Brasil a tomar uma posição na guerra.
“Durante a Guerra, existia uma operação dos alemães para impossibilitar o intercâmbio de abastecimento das tropas. Então, cerca de 13 submarinos atuaram na costa brasileira (em grande maioria alemães mas também italianos). Eles afundavam os navios mercantes que abasteciam as tropas que estavam em guerra”, comenta o pesquisador Augusto Bastos.
Atualmente, o naufrágio se tornou patrimônio histórico e ponto turístico para mergulhadores cearenses em busca de belos cenários. Além da importância para a história dos seres humanos, a estrutura restante se tornou também refúgio para uma variedade de vida marinha. “Muitos tubarões, muitas arraias, muitos peixes. É riquíssimo. O Pecém é uma coisa linda, de outro mundo”, destaca a engenheira de pesca Lídia Torquato.
Ataque ao patrimônioO naufrágio do Pecém encontra-se em um local com, aproximadamente, 30 metros de profundidade. Contudo, nem a distância mar a dentro livra a embarcação de disputas terrestres. O que sobrou da estrutura depois da Guerra Mundial agora é alvo de uma batalha moderna: a prática da pilhagem, que consiste na implosão ou explosão da carcaça para o furto de peças de metais, como cobre e alumínio, para a venda ilegal em sucatas.
“Como estamos vivendo em um mundo moderno, nós entendemos que esses naufrágios representam parte da História para a cultura marítima da cidade”, comenta Marcus Davis Andrade, mestrando em Ciências Marinhas Tropicais, pelo Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC).
“O que a gente precisa fazer primeiramente é conscientizar as pessoas que os naufrágios são parte da nossa história. Num primeiro momento, uma embarcação qualquer pode não ter nada de importante. Pode ser só um barco de pesca qualquer. Mas isso muda no futuro. Por exemplo, se hoje você encontra um barco de pesca egípcio, isso é um item preciosíssimo”, complementa o pesquisador.
A Marinha do Brasil informou que, de acordo com a Lei nº 7.542 de 26/09/1986, alterada pela Lei nº 10.166 de 27/12/2000, “compete à Autoridade Marítima a coordenação, o controle e a fiscalização das operações e atividades de pesquisa, exploração, remoção e demolição de coisas ou bens afundados, submersos, encalhados e perdidos em águas sob jurisdição nacional”.
“Quaisquer atividades em naufrágios sem a observação da referida Lei e das normas pertinentes da Autoridade Marítima, classificam-se em infrações e são passíveis de autuações, multas e processos”, finaliza a Autoridade.
Perigo à vida marinha O bombardeio de naufrágios é prática nociva que acomete não apenas a embarcação do Pecém, como outras estruturas em todo o País. Além do ataque ao patrimônio, a vida marinha também sofre com as consequências das ações, porque as carcaças afundadas servem como recifes artificiais para a flora e fauna marinha, que chegam junto às correntezas.
“Tem muitos locais no mar que são como um deserto de areia sem fim lá embaixo, não tem nada. Muito pobre. Com esses naufrágios, acaba que essas áreas desertificadas encontram um local onde pode haver vida. Começa pela cadeia mais de baixo, vão se incrustando crustáceos, corais que as correntezas trazem. E aí, começam a formar toda a vida em torno daquele ambiente”, explica Lídia Torquato, que também faz parte do mestrado em Ciências Marítimas Tropicais.
Após as explosões, “não tem mais vida marinha, os peixes são afugentados, vão ter que procurar outro local. É um impacto muito grande. Tinha uma comunidade ali toda adaptada, em equilíbrio. Então, esse é o impacto ambiental”, finaliza a pesquisadora.
*** Informações com G1-CE
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