quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Facções confiscam casas e expulsam moradores nos bairros de Fortaleza

O assassinato com requintes de crueldade do comerciante Manoel Pedro Birino, 59, no Grande Jangurussu, teria sido motivado pelo interesse de integrantes de uma facção criminosa em uma vila de 12 casas que seu Birino possuía na comunidade Unidos Venceremos. A intimidação de pessoas ou de famílias expulsas dos lares por traficantes tem sido uma escrita no cenário da insegurança pública na periferia de Fortaleza. No quarto dia da série de reportagem iniciada no último domingo 8, O POVO conta hoje alguns desses dramas,. A série discute o terror implantado pelas facções nos bairros da capital cearense.
No dia 19 de maio deste ano, Manoel Birino tinha saído de casa para cuidar dos negócios e só reapareceria, sem vida, três dias depois. Não fossem os boatos sobre o assassinato e o desespero da mulher dele, Maria Agoreth Rocha, um amigo da família e a enteada de Birino não teriam ido ao necrotério da Polícia Forense do Ceará (Pefoce) reconhecer o corpo de um homem carbonizado, que havia sido encontrado por policiais em um barraco no sopé do antigo aterro do Jangurussu, na Regional 6.
Era Manoel Birino. Para o delegado Osmar Berto Torres, da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), mais um assassinato ligado à disputa entre facções criminosas pelo território e o controle do tráfico de drogas numa das áreas mais vulneráveis para se existir em Fortaleza. “Nessa região (Grande Jangurussu), os homicídios com esse perfil não são poucos”, disse sem cravar números.
“Cidadão de bem”, segundo Osmar Berto, sem antecedentes criminais e nenhuma ligação com as quadrilhas da área, a morte de Birino não aconteceu no contexto da rivalidade em que os inimigos vão se eliminado. Mas na imposição do “poder paralelo” no bairro. “É certo que foi praticado por traficantes de uma das facções, estamos investigando a motivação do crime”, observou o delegado que prendeu um suspeito de participar da execução.
Uma fonte, ouvida pelo O Povo, que não será identificada por questões de segurança, aponta o interesse dos bandidos da facção criminosa pelas casas do comerciante. Além disso, eles estariam desconfiando que a vítima seria informante da Polícia. “Depois que mataram seu Birino, expulsaram todas as famílias que moravam na vila dele”, afirmou.
De acordo com a fonte, fora a expulsão dos inquilinos de Manoel Birino, pelo menos 25 famílias teriam sido enxotadas da comunidade Unidos Venceremos. Gente que teria chegado na época da ocupação, há 20 anos. “Aqui está um inferno. Tem gente doente dos nervos, tem gente que está endoidando, tem pessoa que não sai mais na calçada, tem gente que fica trancada 24 horas, tem gente que perdeu trabalho, tem criança que não vai mais pra escola”, desabafou.
Após tocar fogo em um comerciante, criminosos expulsaram inquilinos de uma vila no grande Jangurussu
Segundo a fonte, os moradores da comunidade Unidos Venceremos se chocaram com a notícia do desaparecimento e posterior morte de Manoel Birino. Mais ainda, porque as histórias sobre o que estava acontecendo teriam circulado pelas ruas mal cuidadas da antiga ocupação. “Pirangueiro fala muito na esquina, quer mostrar marra, botar medo. Muita coisa é mentira, outras não”, explicou.
A vítima, conta a fonte, teria passado três dias encarcerada em um barraco próximo à rampa desativada do Jangurussu. Entre as sessões de tortura, os criminosos teriam conseguido a senha do comerciante para saques bancários. “Peça à Polícia pra olhar o histórico do cartão do banco desse senhor. A moto dele circulou por aqui e pela Babilônia (ocupação próxima à Unidos Venceremos) e não era o seu Birino”, deu a pista.
Números
1 apartamento na comunidade Babilônia, assentamento precário do Grande Jangurussu, funcionaria como “tribunal da morte” para uma facção. No último 27/9, a Polícia encontrou lá um pulmão humano, dedos cortados e uma orelha decepada 
A Secretara da Segurança Pública do Ceará terá de encontrar estratégia para acompanhar e resolver os casos de pessoas expulsas de suas residências pelas facções. Geralmente, por causa do medo de morrer ou testemunhar a morte de parentes, ninguém faz boletim de ocorrência. Ameaçadas, as vítimas dão um jeito de sair rápido do bairro e optam pelo anonimato para preservar outros parentes ou amigos que ficam nas comunidades.
Em entrevista ao repórter Thiago Paiva, o secretário da Segurança Pública do Ceará, André Costa, reconheceu que o levantamento desse tipo de ocorrência é pontual. A pasta não tem essas informações sistematizadas por bairros nem possui o número de pessoas atingidas por mais essa chaga da insegurança em Fortaleza.
Amedrontada, dificilmente a família expulsa vai querer voltar para o bairro. “Mesmo com a investigação”, admite André Costa. “A gente precisa pensar em nível macro”, diz Costa referindo-se ao monitoramento de “ local onde estão atuando as facções, em escola, nessas moradias, pichações, onde espalham mensagens nas redes sociais. Tudo está sendo mapeado para que seja dada uma resposta macro e não pontual”,acrescenta.
O programa Ceará Pacífico também não acompanha as famílias que foram expulsas das moradias pelas facções.
***** Informações com: O Povo
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